“Dançando a Infância” – por Bárbara Ladeia*

Posted on Outubro 12, 2011

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A preocupação com a saúde dos filhos é item de primeira necessidade na lista das prioridades de famílias saudáveis. Na busca pela inserção de uma atividade física no cotidiano dos baixinhos, a escolha quase sempre é tradicional. Aos meninos, cabe a escolinha de futebol; às meninas, a dança, em especial as barras e sapatilhas do balé clássico.

 
Ao longo destes 20 anos de dança, perdi as contas de quantos relatos já ouvi de meninas que foram “obrigadas” por seus pais a frequentar aulas de balé. As aulas começavam com atividade totalmente descomprometidas. Uma dancinha daqui, uma de lá e logo vinham as exigências, as cobranças, os ensaios e rapidamente a dança se transformava em um verdadeiro suplício para as crianças.

 
Ainda que haja muitos benefícios, como a questão de disciplina e postura, na maior parte dos casos a vontade de ver a cria no palco sob os canhões de luzes acaba funcionando como um exercício de autoestima para os pais. É como se mostrassem ao mundo quão belo e talentoso é o seu rebento, produto de seu próprio corpo e alma. Ao contrário do que possa parecer, esse comentário sequer passa perto de uma crítica. Qual pai ou mãe não quer ver o filho brilhar? Qual pai ou mãe não deveria querer ver o filho brilhar?

 
No entanto, é preciso cuidar para que essa ânsia pelos aplausos à pequena criatura não se sobreponha à personalidade da criança, que muitas vezes não se vê dentro daqueles movimentos. Dançar, assim como todas as outras manifestações artísticas, é um meio de expressão. Expressão de sentimentos, de uma história, de um conceito, de uma técnica, de uma mensagem, enfim, de uma ideia. Expor um contexto na forma de um movimento que não soa natural ao próprio corpo é algo tão incômodo quanto explicar um ideia em um idioma estrangeiro.

 
Para crianças, o nó pode ser ainda mais apertado. Ainda que nenhum desses processos ocorra de forma clara, consciente e explícita, no início da vida, os indivíduos dão os primeiros passos na arte de sentir, de falar e de se expor. Estão o tempo todo buscando ferramentas no mundo adulto para dar significado às novas ideias que surgem em suas cabecinhas. Ao mesmo tempo, devolvem ao mundo suas percepções, com as poucas palavras e gestos das quais a cabeça e o corpo já têm domínio.

 
Poucas atividades podem ser tão entediantes para uma criança quanto a obrigatoriedade de praticar uma atividade física com a qual seu corpo, sua mente e sua alma não se identificam. Trata-se de um imenso esforço físico para devolver ao mundo uma percepção que sequer interiorizaram em algum momento. Nada se extrai desse tipo de experiência, exceto traumas, conflitos e chateações.

 
Nem por isso afirmo que pais e mães não devam estimular esse tipo de atividade. O contato com o universo dos movimentos pode acontecer nas mais diversas formas, como nos esportes, no teatro, entre outros. Cabe aos pais oferecer aos baixinhos a maior gama de possibilidades possível para que, assim, ele eleja de que forma seu corpo prefere se movimentar.

 
Os estímulos podem vir tanto na prática quanto visualmente. O contato com a música, o hábito do cinema, as idas ao teatro, a apresentações de dança e até ao circo servem como inspiração de movimentos para esse ser em formação.

 
Importante mesmo é criar uma relação sem bloqueios, onde os pequenos possam conhecer e se divertir dentro da primeira casa que habitam: o próprio corpo.

*Bárbara Ladeia é bailarina e jornalista.

Para homenagear a todas as crianças, e aproveitando a coluna de Bárbara, coloco como exemplo o vídeo da pequena bailaora flamenca Silvia Moreno, uma graça! A diferença é quando a criança realmente tem o prazer de dançar, a partir dela! Feliz Dia das Crianças!

 

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