Do valor dos professores – por Bárbara Ladeia*

Posted on Agosto 19, 2011

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Não precisaria nem tocar nesse assunto se a coluna fosse o Ballet, mas o fato de abrangermos as mais variadas modalidades torna o tema absolutamente evidente.

 São necessários de anos de estudo, empenho e dedicação para executar um pas de deux com excelência ou bailar o Lago dos Cisnes com precisão em exatidão. Pergunto-me diariamente porque tantos profissionais acreditam que não se faz necessário um comportamento semelhante no que tange a disciplina, o estudo e prática em outras modalidades.

 Na Dança do Ventre, no Street Dance, no Flamenco, entre outras infinitas modalidades, “professores” aos rodos saem disseminando o pouco que aprenderam em meia dúzia de aulas. Sem qualquer estudo mais aprofundado ou maiores conhecimentos do contexto daquelas modalidades, repassam movimentos, sequências e passos pré-formatados, à revelia das necessidades e do corpo dos alunos. Desconsiderando a necessidade de atualização diante da óbvia mutabilidade da arte, uma vez que é uma expressão humana.

 A maior parte desses “preguiçosos dos palcos” se esconde atrás da desculpa do “estilo próprio” para se esquivar das obrigações diárias de qualquer profissional, que envolve atualização, pesquisa, estudo, análise, entre outras. Rapidamente o brilho desses bailarinos se apaga, pois a falta de repertório entrega ao público um espetáculo de fragilidades. Seus nomes estacionam nas lembranças de um passado em que ele, o artista, era um verdadeiro criativo. Então surgem os gênios incompreendidos, os marginais da arte, os enjoados da própria profissão.

 O bailarino só enjoa da própria dança quando não se reinventa, não busca mais informações, não agrega conteúdos, não lê o mundo pela dança, não inova — excluindo aqueles, é claro, que se percebem mais felizes em outras atividades. Eu sou capaz de apostar que é necessária mais de uma encarnação para conseguir esgotar uma modalidade em suas possibilidades. Qualquer que seja ela.

 Diariamente, bailarinos de toda a parte se dizem “autodidatas” neste ou naquele estilo. Vou confessar, tendo a desconfiar desse tipo de profissional.

 São poucas as pessoas no mundo capazes de desenvolver excelência em alguma modalidade sem sequer ter estudado os movimentos dos grandes dançarinos dela. Assistir vídeos ajuda ouvir as músicas, mais ainda. Mas eu diria que é praticamente impossível a disciplina corporal sem uma prática devidamente monitorada e corrigida por um profissional. O professor te enxerga em três dimensões, vê seu corpo em movimento dentro e fora do contexto da dança. Um vídeo no YouTube jamais será capaz de corrigir uma posição errada dos pés, um peso adicional sobre um dos membros ou um desvio de coluna.

 Por falar nesses “detalhes”, da mesma forma como defendo arduamente o estudo de música para profissionais de dança, levanto a bandeira do estudo da anatomia. Jamais terá uma consciência corporal diferenciada — condição sine qua non para o bailarino — o indivíduo que se move sem conhecimento da fisiologia dos próprios passos, das próprias curvas e retas. O mau-hábito da falta de estudo também tem na indisciplina corporal seu principal fruto, o que afasta qualquer profissional de dança da excelência. Além da estética do espetáculo prejudicada, a falta de consciência pode resultar em lesões em si e em seus aprendizes.

 O hábito de assistir, ouvir, principalmente sentir e praticar os movimentos no próprio corpo é uma passagem para uma nova trajetória. Somente com domínio dessas ferramentas o profissional é capaz de criar, elaborar, explorar e expor suas expressões de forma clara sob as luzes.

 Sugestão de Vídeo

 Como a Dança do Ventre é a minha casa, a sugestão vem do maior exemplo de estudiosa do corpo, dos movimentos e da Dança do Ventre com quem já tive contato próximo. Elis Pinheiro é bailarina de Dança do Ventre, sim. Mas seu corpo absorveu, ao longo de todos esses anos de dedicação, uma série de influências de outras modalidades. Um curso superior de Dança respalda tecnicamente e contextualmente seus movimentos, dando um tônus diferente a cada uma de suas apresentações e aulas. Foi esse estudo do corpo e dos movimentos que a forneceu capacidade técnica suficiente para desenvolver cursos com temáticas inovadoras, como o de Técnicas de Braços para a Dança do Ventre — assunto no qual é especialista e pioneira — que já rodou o país inteiro.

 Por fim, deixo três vídeos dela mesma, em sintonias completamente diferentes. Como prova de que quem estuda se encaixa em qualquer formato com excelência.

 


 

*Bárbara Ladeia é jornalista e bailarina.

O quadro “Coluna da Semana” é destinado à opinião do colunista. O site dá espaço à ela e a respeita. Os comentários são de autoria e opinião do público, não expressando a opinião do site.

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