Vendendo a alma por novos conhecimen​tos – por Bárbara Ladeia*

Posted on Junho 29, 2011

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É mais comum do que a gente pensa.

Você conhece um profissional que te apresenta a determinada arte, trabalho ou ciência. Basta alguns anos de dedicação e parceria para que o estrago esteja feito: você vendeu sua alma por novos conhecimentos. Quando menos espera, seu pé foi preso a uma bola de chumbo dentro daquele estúdio de música, daquele parceiro de microfone, daquele ateliê, daquela escola de dança.O preço do contrato: a fidelidade eterna.

Você, aprendiz — nome que melhor lhe cabe — deseja conhecer mais, aprender sempre mais. Quer ver o mundo por outros prismas, outras janelas, mas o chumbo pesa, e não lhe deixa sair. Essa âncora também atende pelo nome de medo, ou culpa em outros territórios. Se o mundo não for aterrorizantemente feio, assustador e ameaçador lá fora, pode acreditar que é o maior pecado do universo abandonar sua família para alçar novos vôos.

No começo, você, o aprendiz prisioneiro, mantém a fé no seu lar. Mas aos poucos fica preso em um labirinto de conhecimento que não te leva mais longe que o já alcançado. Então você constrói suas asas e parte para o seu vôo.

Busca novos professores, novos profissionais, novas inspirações. Aprende mais, conhece muitas coisas do mundo.  É exposto a novos desafios e sonha com o dia em que poderá voltar para casa para contar para seus “pais” — aqueles que te ensinaram a dar os primeiros passos — tudo que aprendeu lá fora, tudo que viu,de bom e de ruim, e todas as coisas novas que poderão usufruir juntos.

Ao invés do orgulho pelo seu empenho, reprovação pela suposta traição. Ao invés da admiração pela sua dedicação, rejeição por tudo que você trouxe do estrangeiro. Ao invés do interesse pelas marcas que você adquiriu, a objeção ao seu crescimento.

O aprendiz, que tinha virado prisioneiro, agora é um herege,digno da mais quente das fogueiras. Um traidor, você não poderia jamais ter desejado ir além. Não ouse aprender mais. Não ouse adicionar informações à sua trajetória, caso contrário se misturará à corja de traidores que todos os dias maculam o cenário em que atua o seu ofício.

Importante mesmo é de conhecer a fundo com quem se faz parcerias.Para não correr o risco de ter alguém barganhando pelas páginas da própria história.

Bárbara Ladeia é bailarina e jornalista.