Não publique esse release, por favor! – Por Jéssica Balbino

Posted on Junho 22, 2011

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Ninguém tem a obrigação de publicar um release. Você sabe por que?

Em 17 de junho de 2009 – dia do meu aniversário – o governo derrubou a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

Antes disso – e bem pior depois –  qualquer pessoa, com ou sem nenhuma habilidade para exercer a profissão, se julga um produtor e codificador de notícias. Com a facilidade da inclusão digital e da criação de blogs e sites, em plataformas cada vez mais simples, as técnicas adquiridas durante quatro anos de faculdade vão sendo esquecidas, bem como o talento e a produção de boas notícias.

Especificamente no caso do Hip-Hop, hoje, infelizmente, não temos nenhum veículo impresso que reporte a cultura e o acesso às mídias tradicionais (rádios, TVs e jornais de grande porte) ainda é restrito. Com isso, colocar um trabalho ao alcance para além da própria rua depende exclusivamente da internet – e essa é, inclusive, a linha da minha pesquisa de pós-graduação em jornalismo digital.

Por conta disso, pipocam pela rede sites e blogs que degladiam-se pelos “furos” e melhores notícias, afinal, todos são“jornalistas”.

Ou será que não?

“Não temos a obrigação de publicar releases” – é o que dizem alguns empreendedores de sites voltados à cultura Hip-Hop para as recém surgidas assessorias de comunicação, que numa tentativa de profissionalizar a  comunicação de alguns grupos, adotam a postura comum no universo de jornalistas.

É claro que não. Ninguém tem obrigação de publicar releases, justamente porque o release NÃO É UMA MATÉRIA. Exatamente, de acordo com o guia prático da assessoria de imprensa, o livro “Releasemania” ,o release é uma sugestão de matéria, de pauta, enfim, como queiram chamar.

Ele indica que tal assunto, tal artista, tal abordagem, pode virar uma boa matéria, render um bom assunto e até mesmo se tornar uma“manchete” – pela qual jornalistas (de verdade e de plástico) até matam e morrem.

Mas, em veículos que são administrados e geridos por pessoas que fazem outras mil coisas para sobreviver e fazem isso sozinhas, como vão produzir tais matérias e reportagens? Com isso, pau no cú da assessoria ( e nãovou pedir perdão pela má expressão, porque é no cú que os assessores que ralaram por um diploma e brigam pela profissionalização tomam).

Enxergam a assessoria como a obrigada a produzir matérias diferentes (uma para cada site), com fotos diferentes, com enfoques plurais,entre outras exigências.

Peraí. Para tudo. Você não é um veículo de comunicação? Você não quer ser o melhor e furar todo mundo? Cadê a sua equipe de reportagem? Onde estão seus jornalistas? Onde estão as pessoas que lapidam as notícias, encontram pautas?

Afinal, você não é obrigado a publicar um release. Aliás,release não é para ser publicado.

Mas, e se não forem eles. O que será dos artistas do norte,do sul, do centro-oeste? Porque se não temos repórteres para cobrir via internet, quiçá presencialmente.

E nesse meio termo, os termos técnicos vão pro saco.Retranca, chapéu, calhau, gancho, intertítulo,  são postados, juntamente com o cabeçalho “Oi, peço a gentileza de publicação da matéria abaixo. Obrigada”, matando qualquer jornalista Brasil afora.

Eu poderia me estender e continuar esse texto, mas já me encontro doente diante de tanta falta de conhecimento e excesso de soberba.  Exageradamente, estão me matando aos poucos. Despeço-me para continuar na luta: pelo profissionalismo.

Ah, e não publiquem esse release, por favor. Façam como deve ser: entrem em contato com a assessoria, marquem uma entrevista, façam uma boa matéria e apresentem-na ao mundo. O Hip-Hop precisa disso. Obrigada.

Att,

Jéssica Balbino

Jornalista ( e isso inclui repórter, assessora de imprensa eantes de tudo: leitora e consumidora dos sites e blogs – de hip-hop, porque souapaixonada)

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