O arroz, o feijão, o tempero = pimenta no rap brasileiro – por Jéssica Balbino*

Posted on Maio 4, 2011

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“Tem que comer muito arroz com feijão”. A frase é tão cafona quanto os raps que sou obrigada a ouvir diariamente. Não, não passo um dia sequer sem o famoso: #$%¨&)(*&/youtube/meuvideo ! Confere ai meu trabalho. Tô começando, tenho um grupo, quero fazer sucesso.

O famoso “pensamento facção” me incomoda muito. Nada contra o grupo, aliás, gosto bastante, mas, profissionalismo no rap é imprescindível e a mente aberta, na mesma proporção.  No entanto, na contramão da evolução de discos recheados com “Sucrilhos”, Morango só é bom com a preta de lado, né Criolo?! Vemos infindáveis grupos que surgem periferias afora e fora delas, fazendo sons horríveis, rimas pobres e vídeos piores ainda, nos taxando de obrigação na divulgação. E ai de mim se digo: não dá para divulgar isso agora.

O que muita gente não entende ou não consegue conciliar é militância, profissionalismo e talento.

Fui surpreendida positivamente pelo disco “Nó na Orelha” do Criolo, e cada vez que o encontro ou vejo algo do trabalho dele, fico entusiasmada. Meu tesão pelo rap ressurge. Ele, assim como pouquíssimos, fazem a diferença nesse tempo de iguais. Ele ousa e faz isso com primor. Sabe o que está fazendo. E é natural. Seria ruim se fosse diferente.

Nestes anos todos de hip-hop, nunca vi um disco tão gostoso quando este. Sim, é um disco gostoso. Os sons pedem parar ser ouvidos, apreciados, comidos, degustados. Sim, estou me lambuzando de Criolo, Ganjaman e de toda produção do álbum e penso: tem que comer MUITO arroz com feijão e botar tempero pra chegar num disco desse nível.

Temos estilos e estilos e outros muito bons que não vou citar agora pra não estender, mas, a maioria é um rap pobre – em todos os sentidos – feito por gente que sequer se preocupa em saber por que está fazendo e o pior, sem talento algum.

E nessas indas e vindas, é delicioso demais observar que tem gente fazendo uma parada com tanto amor, tanta verdade e tanto talento, que temos um disco de 10 faixas em que é impossível eleger a melhor. Todas são deliciosas. E há o cuidado de fazer isso profissionalmente. Há o interesse em ousar, em renovar, em mudar, em fazer algo bem feito. Há o exemplo, que na minha opinião, fica aos zilhões de grupos Brasil afora, que estão de olhos e ouvidos tapados, cantando apenas o próprio som e esperando que os shows sejam lotados, sem que façam nada por isso.

Viva o rap com tempero ! Pimenta no rap de todo mundo. Não quero fresco. O bom é ver arder !

*Jéssica Balbino é jornalista, escritora, blogueira e otimista. Acredita num mundo melhor a partir do hip-hop e da cultura ,e trabalha por isso