Liberdade de expressão: aprecie com moderação

Posted on Março 23, 2011

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– por Bárbara Ladeia*

Não é de hoje que o mundo das danças está tomado por um forte ímpeto de misturas. Louvável. Não há nada mais criativo nem verdadeiramente brasileiro do que a fusão cultural.

A ideia então é adotar um raciocínio, quase dialético, para a construção de novos padrões e formatos de expressão corporal. Ponto para o criador, ponto para a criatura. Perfeito sob o ponto de vista criativo, uma vez que abre um infinito de movimentos para corpos repletos de novas possibilidades.

Temos então diversas matrizes diferenciadas que uma vez combinadas são capazes de gerar subprodutos incríveis. Curvas inovadoras e linhas surpreendentes que preenchem o espaço de novas leituras musicais recheadas de outras expressões.

Se a dor e o ciúme do tango, por exemplo, puderem vir acompanhados da flexibilidade e intensidade dos movimentos das ruas, é inegável que teríamos algo surpreendente, inovador e, no mínimo, mais compatível com a realidade de um público muito mais acostumado com os esgueirar das realidades urbanas que dos grandes salões de bailes.

Musicalmente, muitas combinações e fusões já foram experimentadas. A maior parte delas com grande sucesso, propondo uma espécie de fusão nuclear. De dois núcleos rítmicos, conseguimos uma espécie de bomba experimental – dela temos por resultado uma nuvem sensorial, provocando os olhos, os ouvidos e alma, com sequelas irreversíveis.

Acompanhando o exemplo acima, experiências como Tanghetto e Narcotango não podem ser deixadas de lado. São grandes representantes da modernização do tango clássico a partir de uma cuidadosa fusão com os ritmos do hip hop e outras experiências eletrônicas.

No entanto, é a matemática da música quem não nos deixa pecar. O que agrada ou não os ouvidos é questão de afinidade, interesse, mas é inegável que o cálculo rítimico é que não deixa que o músico embarque na completa e irrestrita loucura, produzindo mais estranheza que verdadeiramente uma provocação aos ouvidos de seu público.

Na música há matemática, há padrões. A contagem do ritmo, as notas, os compassos não permitem que o verdadeiro músico se aventure por atividades cujo rótulo de “música” possa ser questionado. Na dança não temos esse trunfo, ou camisa de força — nome disso fica por sua conta.

Não é raro —que jogue a primeira pedra o bailarino ou coreógrafo que nunca viu — vermos cartazes e banners espalhados aos quatro cantos convidando para experiências incríveis em espetáculos ou números de dança baseados na tão falada “fusão de estilos”.

Nesse caso, a maior parte do que se vê se limita a uns passinhos de um estilo aqui, intercalados com uns passinhos de outro estilo acolá.Alguns giros, então o bailarino executa um final deslumbrante e voilá! Habemus coreografia. Para continuar seguindo meu exemplo, teríamos uns deslizes de perna, umas passadas cruzadas violentas, alguns lockings de ombros, um encerramento triunfal com sequências executadas no solo e está feito o espetáculo.

Há uma enorme lacuna no que tange o processo de estudo e pesquisa na construção das fusões em dança. Sinto falta de empenho e estudos, da dedicação em conhecer a essência de cada um dos estilos a serem trabalhados.

Sinto falta de pesquisas mais profundas que indiquem onde e exatamente porque eles podem e devem se cruzar neste ou naquele determinado ponto da performance — ou nela inteira. Com um trabalho corporal bem construído, a música sequer precisa sugerir a fusão dos estilos. É a dança quem vai dar as regras da leitura da música, uma vez que vivemos em um mundo de estímulos muito mais visuais que auditivos.

Se é para falar do quanto falta de pesquisa na construção de uma verdadeira fusão, o aspecto fisiológico de cada uma das modalidades não pode ser deixado de lado. Cada um dos estilos possui suas técnicas próprias, suas linhas e suas curvas.

Com um pouco mais de dedicação e empenho é possível encontrar pontos em comum, bem como algumas dissonâncias, o que tornam a construção desse momento artístico algo muito mais complexo e rico. Vale se perguntar, o tempo inteiro, onde as danças se encontram e se afastam, do ponto de vista anatômico e estrutural. Essa experiência confere um grau de intimidade com os movimentos perfeito para a criação de um novo repertório muito mais elaborado e repleto de nuances.

Tudo me leva a crer que nos falta a matemática. Falta, para a maior parte de nós, os estudos das origens dos movimentos e os cálculos da dimensão de cada um dos nossos deslocamentos, curvas, retas, contrações e expressões. Se a nós foi dado o melhor de todos os presentes, também nos foi oferecida a mais perigosa de todas as responsabilidades e, invariavelmente, o mais arriscado de todos os vícios: a completa, irrestrita e não calculada liberdade de expressão.

  • Fica minha sugestão de um lindo trabalho. Para mim esse foi o grande dia em que o Tango encontrou a Dança Contemporânea com sabedoria e sensibilidade.

Tango Sob Dois Olhares, de Roseli Rodrigues (Cia Raça de Dança)

 

* Bárbara Ladeia é jornalista e dançarina (DRT – 28511/SP).

 

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